terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

DEMOCRATIZAR A JUSTIÇA

                                                                                  Laércio Andrade de Souza


            O povo tem sua concepção própria de justiça como a distribuição eqüitativa de direitos. “O direito de um termina onde começa o de outrem” – dizem, com freqüência. Essa conotação acha-se arraigada no espírito das massas e representa no contexto social o ponto de equilíbrio entre o que julgam justo e injusto, legal e ilegal, certo ou errado, amoral e imoral.

            O estado, reconhecendo a necessidade de ir ao encontro a este anseio, e, por medida de segurança e paz social, criou seu mecanismo de distribuição de justiça a fim de compor conflitos que não lhe interessam e tem assim sua concepção burocrática de “fazer justiça”.

            Só que, como tudo burocrático, esta se faz lenta e gradual, para não se dizer estritamente “lerda”.

            Já se disse que a justiça é lenta porque tem de ser formal!...

            O que assistimos em quase todo o país é uma lentidão “tão lerda”, tão aguçada que vai às raias do comprometimento da segurança do próprio estado, posto que, o retardamento dos processos e procedimentos traz a descrença na população e choca o seu sentimento mais puro de equitatividade, gerando violência.

            A não resolução, a tempo, das contendas é fator de insegurança e fomentadora de novos conflitos. O interessante é que o centro do poder judiciário – os responsáveis imediatos pela agilização da justiça neste país sabem dessa notória constatação e, quando muito, debitam a outro poder as causas do desarranjo a que o contribuinte está adredemente subordinado.

            A solução é política. O juizado de pequenas causas é uma faceta de como o problema pode ser atacado. Mas, toda solução política depende, sobretudo do debate, da aglutinação de forças, da convergência de vontades para resolver o problema no seu ponto estrutural e não superficial.

            Está comprovado que pouco adianta a duplicação do número de magistrados ou de seus vencimentos para dar agilização aos processos, porque eles dependem de toda uma estrutura de serventias bem equipadas, oficiais de justiça bem treinados e pessoal de apoio, para bem cumprirem seu papel.

            E, os juizes inferiores, representantes do judiciário mais próximo do povo, são os que mais amarguram com o problema da lentidão da justiça. A sociedade cobra solução dos advogados, que, cobram com veemência dos juizes e que muitas vezes não podem distribuir a contendo, uma justiça rápida com decisões boas e bem fundamentadas.

            Dir-se-á que o Brasil é um complexo de necessidades: educação, saúde, justiça, saneamento básico etc. uma imensa lista de prioridades à espera de soluções ainda não encontradas. Mas a prioridade da justiça defluiu mais imediata do que muitos problemas também prioritários do povo brasileiro.

            É preciso sacudir a atual estrutura do judiciário brasileiro para ver o que fica em pé após o balanço e reordená-lo antes que a convulsão social se estabeleça. A Constituição foi um passo. Mas a Constituição precisa de leis complementares e de atitudes para que possa efetivamente entrar em vigor.

            Antes não se acreditava na Polícia, hoje desacredita-se enormemente da justiça queimando a imagem dos advogados, juízes (principalmente os inferiores), procuradores e promotores de justiça, defensores públicos e de quantos lidam com a Lei.

            É urgente que a cúpula da justiça desça às bases para que a solução possa emergir destas e não de mais um código judiciário ou de outra Lei Orgânica ou complementar sem auscultar o povo.

            Que se discuta com o povo através de suas representações mais legítimas, associações de classe, clubes de serviços, prefeituras, sindicatos, entidades religiosas as soluções possíveis e cabíveis de procedimentos adaptáveis ao nosso nível e estágio de desenvolvimento social. De que valem cópias de organizações judiciárias alienígenas se a realidade é outra, se as pessoas são outras? É necessária uma justiça tupiniquim!...

            Falar só em verbas falta de verbas, má distribuição de recursos etc., é uma desculpa de quem não tem criatividade política.

            A solução é democratizar a própria organização da Justiça brasileira  antes que o povo faça uma GREVE GERAL contra ela. Neste dia, que esperamos não ocorra, não haverá mais justiça, pois a Instituição desmoronou!

(O autor é advogado militante na Justiça de Itaperuna-Rj)


(FONTE: Jornal do BRASIL, Itaperuna-Rj, 26-03  A 1-04-1989)

terça-feira, 19 de julho de 2016

Prece do Advogado e professor.

Prece do Advogado e Professor

Obrigado, Senhor!

Laércio Andrade de Souza

Pelas profissões que me dotastes: Professor e Advogado.
Naquela, a ousadia de ensinar, educar, instruir (principalmente jovens) para a vida e tentar transformar a sociedade.,,lidando com personalidades diversas, aprendendo a ser paciente até com os impacientes; verdadeiro, com os falsos e mentirosos; amável e compreensivo com os que cultivavam o ódio, a revolta. Nesta, desenvolvi o senso da Justiça, perseguindo em cada caso a Justiça infinita, embora sabedor que esta só a Vós pertence!
Vivi casos e 'causos'!
Senti, principalmente nos clientes mais humildes, a gratidão, embora tenha feito somente  o meu dever, minha obrigação juramentada.
Fui ético com colegas, juízes, promotores, delegados, servidores da Justiça, até com os sem ética!
Verifiquei, na defesa dos clientes, o quanto Fostes injustiçado no seu 'julgamento' ao ser-Lhe/Vous negado um defensor e condenado sem provas, ao sabor de uma motivação político-religiosa e de um 'plebiscito', injusto,  indecoroso e circunstancial!
Nunca 'lavei as mãos', como Pilatos no julgamento de Cristo!
Defendi os fortes com altivez e os fracos com tenacidade e amor.
Lutei por minha Classe, com ou sem mandato, expondo-me a ira de 'autoridades' desqualificadas, mas com 'poder'.
Não poucas vezes chorei por não ter feito a melhor defesa que desejava para convencer o magistrado(a) de seu erro; de sua subjetividade,  de sua parcialidade nos julgamentos.
Amei, do meu jeito, ambas as profissões!
Hoje, já decano, olho para minha biblioteca (parte desatualizada) e concluo: foi com estes livros que defendi minha comunidade, clientes, pessoas, a Classe!
Alimentei os pobres com a Justiça que pude fazer e supri minha família nas necessidades básicas.
Como herança, deixo uma juíza e dois advogados, duas noras também advogadas,  e um neto (estagiário de direito), uma dezena de colegas que acolhi em meu modesto escritório, que hoje brilham no exercício da advocacia e em funções conexas.
Destes, não quero qualquer tipo de recompensa material, nem reconhecimento. Mas exijo ética, justiça, compreensão, principalmente com os materialmente mais pobres, bem como respeito ao Direito e a Justiça!
Obrigado, Senhor!
Itaperuna, 5 de julho de 2016 (cinquentenário da interiorização da OAB-RJ.).
(Dedico esta simples oração a todos os colegas advogados e também os que, cumulativamente exerceram a nobre profissão de professor).